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Jun 08
2008
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partiu tão cedo, Pai ! mas sinto-o sempre presente ...Colocado por luiza mendonça fernandes em Não Indexado |
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Pedem-me para falar de trovões que assombram noites de Inverno. E eu posso dizer que tudo na vida tem duas perspectivas. Imagino-me à noite numa rua varrida de comodidades, triste, ventosa, desolada.
Esqueci-me tanto do casaco como do chapéu, faz frio e nem sequer tenho um isqueiro para acender um cigarro. Olho os meus pés e vejo os sapatos ensopados porque, por distracção, os atirei para cima de uma poça de lama. A papelada que transporto nas mãos amarrotada, não apresentável, um horror. Esqueci-me das chaves de casa e um taxista míope passa de rasteiro num declive do chão e encharca-me de água suja e gelada. A chuva entra em grande plano e parece um enorme aplauso de assistência. Oiço-a furar a estrada, pontapeando a lata dos carros e entrando em luta com o parceiro vento, soprado de todos os possíveis lados, desvairando a minha papelada senão remetendo alguns papéis soltos para fora do meu domínio, virando esquinas e desaparecendo. E então em tom de apoteose, aquele trovão. Inteiro, absoluto, assustador. E eu tremendo e querendo fugir e as pernas fixadas na pedra da calçada e aquela luz que me tira a vista e depois, a acalmia ....
Umas horas antes, noutra dimensão, paralela. Eu enrolada num cobertor macio. Um enorme pacote de bolachas e uma janela semi-aberta e acusando chover. O ronronar do gato nos ombrais do parapeito. E eu, bule de chá, e tão quente fim de tarde que se faz noite, e ténue luz azulada que se faz da mistura do céu cinzento e do candeeiro de mesinha de cabeçeira. E as mãos estendendo-se aos ultimos gritos de um livro de capa vermelho-letra prateada, best seller de suspense. E o gato enrolado aos meus pés enrolados em cobertor. E então, ecoando quase como uma gargalhada, o trovão. Vivido, fantástico, belo. E eu acabei o livro e o pacote de bolachas e a mesma acalmia.
Tudo na vida tem duas perspectivas.





